AVISO: Algumas coisas nesse texto podem ser consideradas spoilers, porém não estragam a experiência do filme. Cenas chave não foram contadas. Dito isso, aos chatos leitores que se importam, sigam por conta em risco.
Moonlight: Sob a luz do luar é um filme de 2016, escrito e dirigido por Barry Jenkins. O longa foi indicado, entre outros prêmios, na categoria de Melhor Filme ao Oscar. O primeiro diferencial dessa obra para seus concorrentes é a presença criativa de negros: Além do roteirista e diretor, temos na película a presença única de personagens negros, tendo apenas no final a aparição de pessoas brancas (como figurantes). É importante vermos um filme protagonizado por negros, que não seja uma comédia sobre pessoas chapadas ou mais um filme sobre escravidão. Os dramas raciais, claro, fazem parte do longa. Porém, Moonlight vai além, abordando tantos outros temas, tornando o filme tão humano e tão especial.
Moonlight conta a história de Chiron, um personagem negro, que mora em uma área periférica. O filme é divido em três partes: Moleque (onde vemos Chiron criança), Chiron (onde vemos Chiron jovem) e Black (onde vemos Chiron adulto).
Moleque: Aqui nos é apresentado a vida de Chiron durante sua conturbada infância. Na escola, sofria com Bullying. Em casa, sofria com a presença da mãe, viciada em drogas. O garoto encontra um refúgio na companhia de Juan (Mahershala Ali), um homem que o resgata de outros garotos, que estavam o perseguindo. Tal perseguição é por conta do comportamento do menino, mais fechado e quieto. Chiron, nesse momento, está passando pela fase das descobertas, e toda violência e opressão (sendo chamado de “bicha” pelos outros garotos) nos mostram que o silêncio dele não é timidez.
A praia é um elemento constante durante o longa. Aqui temos uma cena onde Chiron aprende a nadar, que representa esse primeiro ato do filme: O “moleque” crescendo, se descobrindo, aprendendo. A presença de Juan, ensinando o garoto a nadar, nos faz refletir da importância dessa figura na vida do garoto.
É aqui onde há uma poderosa mensagem do filme, que inclusive batiza o mesmo. Juan conta a história de uma mulher que o chamava de “Blue”, pois ela dizia que a luz do luar fazia a pele dos negros ficarem azuis. A luz brilha diferente sobre os negros.
Chiron: Nessa segunda parte do filme vemos Chiron (Ashton Sanders)
na fase jovem, e talvez o verdadeiro Chiron, justificando o nome do capítulo. Aqui temos a questão das drogas, do vício da mãe de Chiron, mais explorada. Também temos as questões sobre a sexualidade de Chiron sendo abordadas, na belíssima cena na praia, novamente.
Chiron, não querendo ir pra casa, encontra Kevin (Jharrel Jerome), um amigo de escola. Partem então pra praia, para conversar e fumar. Após um diálogo maravilhoso e tocante, há uma cena de beijo e relação sexual entre os dois rapazes. Vale notar que a cena nos mostra a praia durante a noite. Apoiando-se nisso, junto da reflexão sobre a luz do luar bilhar diferente para os negros, vemos a importância do filme em tratar de diversos temas tendo em vista a questão racial. Quaisquer problemas (como a homofobia, a questão das drogas, a violência, e etc) são intensificados se essas pessoas forem negras. Esse é o trunfo do filme: Já vimos diversas histórias sobre problemas com drogas ou com preconceito. Mas Moonlight aborda tudo isso, com a perspetiva de um personagem muito mais exposto a tais problemas. Black: A parte final do filme nos mostra a vida adulta de Chiron. Agora chamado de Black (Trevante Rhodes), o protagonista se torna um traficante. Totalmente diferente do que era, Chiron se torna o que ele mais abominava. Porém, percebemos que após acontecimentos do fim da parte dois (não contadas aqui) não haviam muitos caminhos para seguir. É aquela questão anteriormente levantada: A exposição que Chiron sofria por ser negro, morador de periferia. Ainda mais pois, seguindo esse caminho, Chiron, ou Black, conseguiu viver bem... E estava “bem” até receber a ligação de Kevin.
Após anos afastados, os dois se encontram. Não irei dizer muito sobre essa cena, pois aqui temos diálogos ótimos, que devem ser apreciados. Porém, mais uma vez temos a cena da praia presente, onde consegue resumir bem o capítulo final do filme.
Na cena, Chiron, ou Black, observa a praia onde viveu momentos marcantes. Porém, ele passa por ela afastado, apenas olhando. Black, naquele instante, estava tão longe dos momentos de descobertas vividos na praia quando “moleque”, e ainda mais longe do “Chiron”, sendo ele mesmo, descobrindo quem ele era, na cena do outro capítulo. A praia está distante, assim como as lembranças estão da realidade. Aqui, a pergunta é levantada: Quem é você Chiron?
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