Após Alan Morre revolucionar os quadrinhos com "Monstro do Pântano", "Miracleman" e mais precisamente com "Watchmen" nos anos 80, considerado a década ápice da nona arte, os anos 90 foram marcados pelo desvinculamento do autor das grandes editoras. A partir daí, Moore lançou materiais independentes e sem qualquer amarra criativa, como "Do Inferno", "Lost Girls" e "Small Killing" (merece publicação do Brasil); foi durante essa fase de sua carreira que o escritor fundou sua própria editora, intitulada Mad Love, onde viu terreno para publicar seu material mais audacioso e tão revolucionário quanto foi Watchmen: Big Numbers.
Big Numbers foi um grande estudo sobre a teoria do caos, presente em diversas obras de Moore. Na trama, vemos diversos personagens de uma cidade, suas vidas e complexidades, interagindo entre si, e abaladas por um fator em comum: A construção de um grande shopping. O roteirista faz um tratado sobre comunidade, interação humana e realismo. Ficou a cargo de Bill Sienkiewicz (Elektra Assassina, Brought to Light) a arte dessa grandiosa obra.
O artista varia sua arte, em preto e branco, entre hiper-realismo, cartoon e rabiscos. A divisão das páginas se dá em um esquema de doze quadros de mesmo tamanho, formando uma narrativa sequencial ao mesmo tempo que forma uma imagem completa, sendo pensada pelos artistas não apenas o movimento entre quadros, mas também a página como um todo, proporcionando uma experiência singular dos quadrinhos.
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| Exemplo da variação do tom da arte de Bill Sienkiewicz. |
A obra era revolucionária; a escrita de Morre estava inspirada, e as vendas e críticas da primeira edição foram extremamente positivas. Tudo isso formou um clima de grande pressão em cima de Sienkiewicz, e, após sair a segunda edição, os atrasos foram constantes. Bill disse em uma entrevista:
"Logisticamente, era um pesadelo. A escrita de Alan é tão brilhante que a arte fica a serviço da história, é um requisito... Eu estava tentando alcançar o hiper-realismo e havia por volta e 45 pessoas envolvidas como modelos. Conforme ela seguiu em frente as coisas mudaram. O garoto entrou em fase de crescimento, ficou mais alto e desengonçado, quase instantaneamente... Eu me senti mal, senti que desapontei Kevin, fiquei abatido e deixei Alan abatido. Bem depois, telefonei para Alan e basicamente me desculpei, não pelo que eu passei, que era vida real, mas por ter comprometido o projeto como um todo".
Aliados ao texto denso de Moore, às cobranças e toda uma situação dos modelos reais dos personagens da obra que estava tornando-a cada vez mais cansativa, os problemas pessoais de Bill influenciaram nos atrasos. O desenhista largou o livro após terminar o terceiro capítulo (seriam doze no total), tal capítulo nunca publicado. O restante da obra ficaria por conta de Al Colombia, que deveria emular a arte de Sienkiewicz. Tal situação o incomodou, vendo que, numa obra de quase 500 páginas, transformar a arte em algo genérico, imitando outro artista, se tornou cansativo e impossível. Colombia nunca entregou nenhuma página sequer, e há quem acredite que ele as destruiu.
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| Alan Moore por Bill Sienkiewicz |
Além disso, junto ao cancelamento da obra, Alan Moore se divorciou de Phyllis, no qual teve um casamento de 13 anos; isso abalou o autor fortemente, e Big Numbers já não era mais uma obra atrasada por fatores logísticos, mas sim uma obra em que o autor já não sentia mais prazer de terminá-la.
O quadrinho se tornou um grande "o que poderia ter sido?", talvez a grande obra prima de Alan Moore. Porém, nem tudo foi perdido, pois tivermos a temática iniciada por Big Numbers sendo usada em seu romance "A voz do fogo", além do seu mais novo livro, e talvez magnum opus, "Jerusalém", onde temos narrativas geográficas, em que a cidade é o personagem principal da história. Comparo o que ocorreu em Big Numbers ao Duna de Jodorowsky: um projeto ambicioso, talvez megalomaníaco, mas que rendeu frutos aos estudos e produções do autor e da mídia como um todo.
Segundo Moore:
"Eu acho que se Big Numbers tivesse seguido em frente, ela provavelmente teria mudado tudo. Os fragmentos que sobrevivem são bastante engenhosos. Ma, agora... Fico feliz por ela ser meu Edwin Drood."
O que nos resta são os estudos impressionantes de Moore, que nos fazem pensar o que poderia ter sido a obra e como ela mudaria a arte sequencial. O autor fez um gráfico, do tamanho de uma toalha de mesa, onde escreve minuciosamente o que cada personagem, ou seja, cada indivíduo daquela cidade, está fazendo durante cada momento. Absurdamente genial!
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| Parte do enorme gráfico, presente na Biografia "Alan Moore: O mago das histórias", lançada pela editora Myhtos. |




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