ATENÇÃO: ESSE TEXTO CONTÉM SPOILERS
Nesse domingo (25) foi exibido o oitavo episódio de Twin Peaks: The Return, e é aqui que compreendemos o porquê de não chamarmos esse retorno da série terceira temporada. Lynch e Frost estão dando sequência ao que foi feito nos anos 90, assim como também criam um prelúdio; em suma, os autores estão tendo total liberdade criativa para explorarem o universo que criaram como bem entenderem.
No último episódio, na qual eu enchi de elogios na análise que você pode conferir clicando aqui, tivemos uma abordagem mais pé no chão, mais próximo do que víamos nas primeiras mostras de Twin Peaks, principalmente da primeira à primeira metade da segunda temporada. Dessa vez Lynch e Frost nos jogam em um enigma sem massagem!!! De longe, esse é o episódio mais hermético da série, superando o último episódio da segunda temporada e os primeiros dessa. A construção do mistério vai além das situações surrealistas, e exigem toda a montagem, direção e fotografia para criar algo que não deve ser visto, mas sim decifrado.
O episódio começa com a fuga de Sr. C, que na tentativa de matar o motorista de seu veículo é enganado e morto. Sua morte causa um distúrbio, e criaturas que parecem mendigos vão até o corpo e de lá retiram a entidade Bob. No final, Sr. C retorna a vida.
Após isso, há um flashback para 1945, o ano do fim da Segunda Guerra Mundial. Aqui presenciamos a explosão de uma bomba atômica, e, com a câmera de Lynch, entramos dentro da explosão. A partir daí, temos uma exibição alucinada de cortes e montagens, de imagens, cores e sons.
Definitivamente, uma poderosa experiência visual, com uma apurada direção e, principalmente, expressão visual (algo parecido com o que Kubrick fez em 2001). Aquela viagem surreal nos leva à imagem de um bebê, que acredito ser uma entidade poderosa da Black Lodge. Digo isso pois, a partir dessa entidade, é liberado uma energia que cria outra entidade dessa dimensão, Bob. Talvez esse seja o momento da criação da própria Black Lodge.
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| A suposta entidade. |
As cores em preto e branco são importantes para a construção da narrativa visual, uma vez que estamos falando em um confronto entre Black e White Lodge. E esse confronto é provado quando, em resposta à criação de Bob, O Gigante, entidade da White Lodge, cria um ser para ser a contraparte de Bob: Laura Palmer.
Esse é o grande plot-twist até aqui! Como dito na introdução dessa resenha, os autores estão com total liberdade para criarem o que bem entenderem no universo Twin Peaks, e provavelmente por isso toparam essa renovação da série; a partir daqui, essa temporada não é apenas uma continuação, mas também um "o que houve antes".
Como dito e repetido na série de análises que venho fazendo até aqui, o grande tema de Twin Peaks é a dualidade. Dualidade nos remete ao conflito entre opostos, pois estamos falando de dois extremos; porém, também nos remete a ideia de equilíbrio, da dependência da existência de um para haver a existência de outro. Nesse momento, percebemos que Laura não era apenas uma garota que foi assassinada por uma entidade extra-dimensional. Laura Palmer também é um entidade, porém da White Lodge, ou seja, oposta à Bob. E Laura Palmer representa toda a questão do equilíbrio (que percebemos pela sua vida dupla), enquanto Bob representa apenas o mal.
Saltamos para 1956. Acompanhamos a trajetória de um casal num encontro, ao mesmo tempo que aqueles estranhos seres que ressuscitaram Sr. C aparecem também. Aliado a isso, a aparição de uma estranha criatura, meio sapo meio inseto.
Um dos estranhos seres invade uma rádio e mata todos de lá, demonstrando seu poder, para passar uma mensagem para toda a cidade: "Essa é a água e esse é o poço; beba tudo e desça. O cavalo é o branco dos olhos e a escuridão dentro deles".
A mensagem da rádio aparenta ser hipnótica, e faz com que a garota que estava em um encontro durma, possibilitando que o sapo-inseto entre em sua boca. É difícil criar uma teoria pra isso, mas podemos tentar. Primeiramente, a cena do sapo-inseto sendo engolido aparentemente representa uma possessão, e logo nos leva a crer que seja Bob entrando no corpo. A criação de Bob ou até mesmo da Black Lodge ocorre ao fim da Segunda Guerra Mundial, a partir da explosão de uma bomba atômica, talvez símbolo máximo da maldade humana; aqueles seres afetados pela bomba se tornaram fantasmas eternos da Black Lodge, e são eles que aparecem ressuscitando Sr. C. A grande questão é que Bob nasceu em 1945, mas esperou até 1956 para possuir alguém, fazendo-nos crer que aquela garota é de alguma forma escolhida. A ideia desse episódio, ao meu ver, é estabelecer um ciclo, fazendo com que a morte de Bob no presente obrigue a criação dele no passado; mas a questão é: O que ocorreu ou mudará entre 1956 e 1990, e entre 1990 e os tempos atuais?
Mais uma vez, tivemos um episódio de muita qualidade e surpreendente. Pode não agradar àqueles não acostumados com as obras de Lynch ou até mesmo os fãs mais ferrenhos das primeiras temporadas. Aqui temos algo novo, experimental. A realidade é que Twin Peaks sempre foi assim; sempre foi um ícone da TV por inovar. Sabemos que nos anos 90 as inovações não poderiam ser tamanhas quanto as de hoje, mas o que Twin Peaks fez foi fenomenal e influenciou diversas outras séries. Por isso digo que o episódio VIII foi uma das experiências áudio-visuais mais intrigantes que já vi, pois se trata de uma série de TV, e não de um filme autoral de Lynch. A Parte VIII é ousada, misteriosa e, principalmente, divertida, se você acha legal ficar criando várias teorias em sua mente com poucos recursos de verdade, baseando-se mais na intuição.




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